História de um lar cristão que deixou de ser cristão

Eu sou um lar cristão. Não, não, desculpem o engano, eu era um lar cristão. Antes, nos dias passados, havia em mim, sempre, em todo o tempo, sobre todos os assuntos, um conversar gostoso, com sabor de compreensão, de franqueza, mas sobretudo de respeitoso amor.

As crianças riam alegres com aquele riso claro, próprio delas mesmas; todos falavam trocando impressões sobre os mais variados temas; à noite, abria-se a Palavra de Deus, meditava-se em torno dela e lindos hinos eram cantados; orava-se também fervorosamente, às vezes até de mãos dadas ou com todos ajoelhados.

Ah! Como eu gostava daqueles momentos! Parecia-me que os próprios anjos se debruçavam sobre aqueles pequeninos que ao ler, tropeçavam em várias palavras, e então olhavam para os pais certos da carinhosa ajuda.

E eu, o lar, me inchava, sentia-me muito mais importante lembrando-me que a origem, o centro daquela maravilhosa harmonia era, nada menos que o Senhor Jesus Cristo, em nome de quem eu havia sido criado.

Porém, quase que de repente, tudo mudou. O meu chefe, o esposo e pai que era o cabeça da família, é agora, apenas uma pessoa calada, triste…

Parece que todos se cansaram de falar, não sabem mais cantar, andam nervosos e apressados. Reunião de família? Nem pensar! Nunca estão todos em casa! Mas, se algum dia estão, é assim: um vai para o seu quarto, fecha a porta e fica lendo umas revistas esquisitas, muito diferentes das que lia antes.

Outro se encolhe numa poltrona, os olhos fixos no teto, torce e retorce as mãos, com a expressão aflita de quem tem graves problemas; a maioria, no entanto, se concentra em frente daquele aparelho chamado televisor e, então, o silencio é completo.

Ninguém tem qualquer coisa a dizer, mas se tivesse, ouviria logo um psiu! Opressor, reprovador como se houvesse dito uma feia palavra ou cometido um erro terrível.

A Bíblia, a carta de Deus aos homens, ali está num bonito suporte a um canto da sala para ser vista por quem chega em visita, pois os da família não a examinam mais, já nem tocam nela.

A cada dia sinto que os valores reais estão sendo trocados por fantasias, ideias de homens, enganos lamentáveis. Vou lhes dizer com franqueza: não entendo bem como sendo eu o que era, estou agora como alfo que nuca deveria ser – somente um grupo de pessoas se movendo num ambiente de opressões, apreensões, temores, desamores, indiferenças, friezas…

Estou doente, quase agonizante; dói em mim o silencio que cala os diálogos amigos, antes tão frequentes; além disso, vejo angustiado, que os meus componentes, os meus queridos, pensam que estão tão bem, que evoluíram, que cresceram, mas lá, bem no íntimo, sofrem da insatisfação de quem deixa a verdadeira vida por muitas coisas que já trazem em si, a marca da morte.

Por isso peço a você, a vocês todos, a vocês todas que orem, orem por mim, pois eu não quero morrer, ao contrário, desejo, e o Senhor há de desejar também, que os volte a ser como fui criado: “Um Lar Cristão!”.